Romance Coloca na História o Homem Comum

14 de novembro de 1810. Um esquadrão de mais de duas centenas de soldados fortemente armados, pertencente ao 6º Corpo do Exército napoleónico, entra e estaciona na pacata aldeia do Alqueidão da Serra, melhor dito, Alqueidão das Contas.

A igreja é profanada e transformada em cavalariça, o prior é fuzilado, o medo e o terror apoderam-se da população logo que se dá conta da sua impotência. Nos dias seguintes, uma iníqua onda de destruição assola a aldeia. As casas são saqueadas em busca de alimentos e valores, algumas são incendiadas, crianças são postas ao serviço das tropas, mulheres jovens são violadas e os homens, esses, refugiam-se longe, por entre lapas e algares, na serra de Aire; as próprias alfaias agrícolas são confiscadas para que não se transformem em armas de retaliação.

A fome e a miséria – mas também o sentimento de revolta e indignação – são as consequências tenebrosas que marcam os dias e as noites de uma população que antes se dedicava genuinamente às suas atividades agrícolas e artesanais, às suas tradições e crenças, e em que as suas crianças – que cedo haveriam de tornar-se homens e mulheres – se entregavam às suas imaginativas brincadeiras. Simples seres humanos confortados na solidariedade do espírito comunitário e que confiavam grande parte do seu futuro nas mãos de Deus.

Esta é uma história real que os livros de História não contam.

Personagens reais e heróicos como o José Saforro, a Purfica, o prior Joaquim, o Manuel Estevão, a Maria Pereira, o João Roque, e os filhos deste casal. Destes, Manuel, o mais velho, com apenas 11 anos, vai levar-nos a uma história de sofrimento e de esperança, de amor e de desamor, à defesa de valores pátrios concatenada com o  irresistível apego às raízes de onde forçadamente foi arrancado. Manuel Roque, eis o homem cuja história de vida se fez repercutir na memória dos Alqueidanenses como o Avô Capitão.

Uma história com vilões bem reais: as tropas francesas da terceira invasão napoleónica. E ainda, uma história de dor e de morte que se fez continuar, duas décadas depois, na guerra fratricida de D. Pedro e D. Miguel, entre liberais e absolutistas. Esta é a substância de partida que dá corpo ao livro do alqueidanense João Amado Gabriel, precisamente com o título: o Avô Capitão.

A Terceira Invasão foi violenta e devastadora para as populações da região Oeste

Este período da terceira invasão, comandada pelo “enfant chérie de la victoire”, André Massena, foi particularmente violento e devastador para as populações portuguesas, principalmente as que viviam nesta região oeste. O concelho de Porto de Mós, em muitas das suas aldeias, soube bem o que foram as sevícias infligidas pelos franceses quando, após a derrota do Buçaco e perante a inexpugnabilidade das linhas de Torres, se viam obrigados a retirar para estas regiões à procura de víveres para os seus homens e cavalos, estacionando por estas bandas à espera de orientações das chefias.
Para além do Alqueidão, terras como Mira de Aire e o Juncal foram especialmente massacradas pelos invasores. Meses antes, também as tropas comandadas por Wellington, com a sua política de terra queimada, tinham já deixado muita gente a sofrer com as consequências da destruição dos campos agrícolas. Registos há a dar-nos conta de que, após esta invasão, terão desa- parecido cerca de dois terços dos habitantes das nossas aldeias e terão sido destruídas casas em igual proporção. Importa também reavivar que os danos “colaterais” destas invasões, não só da terceira, foram também e principalmente o desrespeito e o saque de todo um património cultural que não mais teve volta para o nosso País (os ingleses também não estiveram com meias medidas).

Um livro surpreendente por integrar na narrativa um excelente repositório etnográfico

Este livro surpreende positivamente não só pela descrição dinâmica do lado trágico da vida daqueles que foram apanhados inocentemente pelas ambições hegemónicas da nação que impôs o Bloqueio Cotinental contra os ingleses, mas também por integrar na narrativa um excelente repositório etnográfico ao nível do vocabulário (palavras e expressões da época), dos rituais religiosos (transcritos do latim), das tradições e costumes, das profissões e atividades (as contas de rosário), das lengalengas (as onomatopeias com os sons do sino são uma delícia!), da maneira de se ser homem, mulher, jovem e criança.

Por aqui se pode ver que o livro de João Amado Gabriel foi o resultado de muita pesquisa e de muita dedicação. Muito desse manancial surgiu não só da auscultação da tradição oral mas também – e principalmente – das investigações legadas por um alqueidanense de grande envergadura, de seu nome, Alfredo de Matos.

“Avô Capitão” coloca na História o homem comum

O “Avô Capitão” é um livro que coloca na História o homem comum, amplificando-lhe o papel na construção da própria História, dando- lhe nome e desígnio, preenchendo o espaço da ação que, para os estrategas da altura, não era mais que um marco topográfico de putativo valor militar. Espaços que eram, e continuam a ser (felizmente), moradas multidimensionais de pessoas-concretas inseridas activa e necessariamente nas suas comunidades, com os seus sonhos, os seus afetos, os seus desafios, as suas convicções. Pessoas que vão transportando no seu sangue a própria História do País, dando-lhe corpo e transmitindo-a de geração em geração. Neste livro, os protagonistas são mesmo as figuras do Povo enquanto que as figuras da História oficial são secundárias.

Bela homenagem ao povo do Alqueidão das Contas

Ler o “Avô Capitão” é permitirmo-nos aceder, aqui e agora, ao reconhecimento in situ desses acontecimentos. Um reconhecimento que é, simultaneamente, um autoconhecimento ou a consciência amplificada e vivificada da nossa condição de continuadores da memória dos nossos ancestrais. Com este romance histórico, João Amado Gabriel prestou uma bela homenagem ao povo do Alqueidão das Contas. Prestou uma grande homenagem a todos nós. Que venham mais histórias, que venham mais livros!

António Alves
In “O Portomosense”