Manuel só podia ser português

Passadas 30 ou 40 páginas eu, sinceramente, disse logo: “Este livro vale muito a pena.” Porque é um livro que está muito bem escrito, faz descrições muito precisas.

Eu acho que isto é uma forma difícil, porque há muita gente que escreve coisas no papel, mas a descrição de paisagens ou de situações que nos fazem realmente estar a ver a cena que o autor quer descrever e quer que nós vejamos, é uma qualidade que não é fácil. Claro que o João diz que não é escritor. Eu acho que, obviamente ele ainda não é escritor, mas pode vir a ser muito rapidamente, porque numa primeira abordagem num primeiro livro, esta facilidade que ele revela nas descrições que faz, na forma como as descreve, acho que é uma qualidade absolutamente rara e que, se ele quiser, pode escrever muito mais coisas.

Mas eu queria falar um pouco sobre o Manuel, o avô Capitão de muitos de vós.

O Manuel só podia ser português.

E porquê?

  • Porque nasceu num meio onde perspetivas de futuro não tinha. Dificilmente se adivinhava para ele um futuro diferente daquele que teria aqui na sua terra, na sua aldeia.
  • Depois acontece-lhe uma desgraça que acaba por ser a sorte do próprio Manuel. E essa desgraça acontece-lhe fora de Portugal. Ele é levado pelos franceses e acaba por ficar fora do país e essa sua desgraça acaba por ser a sua sorte ou o inicio da sua sorte.
  • Há ainda outra situação. Ele só quer voltar a Portugal, como uma boa parte dos portugueses que saem do país.
  • Ele viveu sempre, ou quase sempre, do lado errado da História –  o que acontece muitas vezes aos portugueses também e acaba por morrer com a felicidade de uma realidade que não existia, isto é, ele acaba por morrer julgando que D. Manuel era rei e já não era. Isto é uma metáfora muito interessante e muito particular do ser português.

Eu acho que vale a pena ler, e sobretudo reler. Eu já o li duas vezes. É um livro que se absorve rapidamente e é uma grande história que aqui está.

António Luís Marinho